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Vontade - Eros - Demônios

  • Foto do escritor: Michel Luiz
    Michel Luiz
  • 15 de jan.
  • 11 min de leitura

A derivação teológica medieval/contemporânea do conceito "demônio", obviamente é mais um dos inúmeros equívocos de interpretação pelo medo, das nações ocidentais. Primeiramente vale compreender que "demônio" se refere ao entendimento de mundo escolástico grego, advindo dos aprendizados filosóficos Norte africanos. Era dito que os "Daiemons" (δαίμων) são aspectos primordiais que se manifestam na natureza (visto que não viam natureza objetiva dividida da mente subjetiva, mas em conjunto); e tais manifestações exercem influência súbita sobre as ações e emoções das pessoas. Posteriormente, na filosofia grega, os Daimons foram compreendidos como "uma força inspiradora" ou o fenômeno da morte. Neste antigo conceito, formalizaram então as vontades benéficas como "eudaímon" e as vontades maléficas como "kakodaímon".


C. G. Jung em sua obra "Psicologia do Inconsciente" (Vol. 7/1), considera que a vontade de potência da natureza psíquica assim como o Deus Eros, fazem parte dessas estruturas arcaicas que predominam na humanidade, como eram entendidos os velhos demônios. Porventura a igreja ocidental ao subjugar e esconder suas sombras maléficas, formalizando a cisão entre humanidade e Natureza, inaugurou a dicotomia narcísica ocidental, levando a crer que tais demônios são externos a nós, feito "anjos caídos"; criando assim o conceito de demônios que ainda assombram o imaginário cristianizado.


Foi impresso no imaginário coletivo que um antigo rei hebreu (Salomão), havia subjugado tais demônios, reconhecendo seus nomes originais e seus poderes; levando aos pobres espíritos racionais humanos o entendimento de que tais forças elementares já eram separadas de um "todo natural", podendo ser utilizados em magias cerimoniais sob um pomposo nome de "magia goetia"- evocação de espíritos, segundo um grimório intitulado de "Ars Goetia". Bem, ao menos esse grimório aponta para práticas que exigem ética, respeito e disciplina; diferente dos doidinhos de bairro que se intitulam de magistas por aí e usam destes conceitos para ganhar fama e prestígio, na base da picaretagem.


Puck - Fada da obra "Berserk", de Miura Kentaro.


Compreendendo Eros


Freud obviamente numa tentativa de reducionismo materialista, classificou este Eros como estritamente causal de fatos anteriores da vida - "princípio da causalidade". Para Adler este "demônio" passa a ser visto como Vontade de Poder, sendo uma manobra dos fenômenos causais tendendo para "um fim", uma entropia teleológica: ou seja, finalidade, objetivo ou propósito de algo existir. Ao "psicologizar" Eros, este fenômeno passa a ser compreendido como uma forma de "desordem dos afetos eróticos", onde a Psicologia acerta no entendimento de que afetos eróticos NÃO são apenas os de relacionamentos sexuais, mas também a vontade erótica de estabelecer vínculo, grupos de amizades, impressão social, organização de equipes, etc. etc. Eros está para além da libido freudiana e da energia psíquica de Jung, ou das vontades de vida de Adler.


Eros antes de ser representado como um ser angelical cujo apelido é "Cupido", o Eros Primevo surgia do Caos Primordial. Era como uma força absoluta que unia todos os Elementos universais. Nessa concepção, Eros era a união que gera a transformação, não a desintegração novelesca das paixões patológicas ordinárias. O Amor universal, ou seja, como princípio fundador cósmico! Algo como o desejo molecular para além dos vestígios da libido, enquanto energia psíquica unicamente humana. Os espiritualistas vão comparar com o entendimento platônico de reencarnação, onde Platão dizia sobre "uma força que atrai a vida para Gaia". Ainda assim, me parece que Eros está para além de tão somente isso. Eros está para a Manifestação da realidade e seus ciclos de transformação!


Eros como a "inflamação", ou aquilo que gera uma causa, um princípio de ignição, de ação e por consequência, uma mutação; foi aquilo que os povos romanos então denominaram de "Cupido". Tal inflamação "aponta" para as direções mortíferas, ou da busca pela cura: uma escolha que promove a atitude, ou o desfalecimento. Este atributo psicológico foi profundamente colocado como uma chave simbólica nos tarôs medievais e por fim, no tarô ilustrado por Pamela C. Smith - mais conhecido como Rider-Waite-Smith atualmente (RWS).



Na obra de Platão "O Banquete", o filósofo descreve a origem de Eros de uma forma peculiar: Eros nasce da união de Abundância com Pobreza (não os conceitos, mas numa questão universal sobre tais atributos da existência). Abundância representa nessa clássica visão, a satisfação e completude, enquanto Pobreza é o entendimento da insatisfação constante. Eros então transita entre essas ambivalências complementares.


Daí sim começa "o mito fundador" do entendimento de humanidade, através do mito Eros & Psique; os caprichos humanos vindos das aventuras de Cupido e essa busca pela transcendência em um Amor transformador. Vou trazer um resumo dessa história, registrada no séc. II d.C. por Apuleio - um latino romano - em sua obra "As Metamorfoses". Você poderá encontrar essa leitura clicando aqui, e ouvindo a narração no canal "Noites Gregas":


Era uma vez...


"A Deusa do Amor Afrodite, estava preocupada com sua velhice. Havia um rei e uma rainha cuja herança em vida foram suas 3 filhas. A mais jovem, agraciada por uma beleza ímpar, se chamava Psiquê. Psique era chamada de "a nova Afrodite", levando os templos da Deusa ter uma baixa frequência, pois as pessoas iam ao reino observar tal jovem nascida entre os humanos. A Deusa fica indignada, chamando seu filho Eros, representante do seu amor. A Deusa entra em prantos e pede ao Eros que a vingue!


Eros levanta uma questão: o que quer que eu faça? Afrodite pede para que a humana se apaixone por algum homem horrível, assim este homem também se afastaria dos templos do Amor. Eros possui em seu poder duas flechas: uma com ponta de ouro que eleva os seres ao amor, e outra com ponta de chumbo que rebaixa os seres ao ódio.


No profundo anoitecer, Eros vai ao palácio onde Psique se encontrava dormindo. A luz do luar atravessa as janelas do aposento da jovem, e ao revelar seu rosto, Eros assusta com tremenda beleza e num desajeito, se fere com a própria flecha dourada! Eros se apaixona pela princesa, mas se retira em silêncio, não contando para sua mãe sobre o ocorrido.


Psiquê passa a se entristecer, ao passar do tempo, pois nenhuma pessoa tem a ousadia de declarar seu amor e a pedir em casamento. O rei acredita que isso poderia ser alguma maldição divina, então vai de encontro a uma oráculo para saber sobre isso. A oráculo diz que sobre um rochedo, o rei deverá colocar sua filha vestida para um casamento. Mas o diz para não esperar que algum humano a despose, mas sim uma criatura monstruosa, cuja as asas são capazes de atravessar o azul celestial, aterroriza os deuses e faz tremer o próprio Zeus! O rei prepara as roupas fúnebres para a filha, mas Psique aceita o sacrifício e tenta consolar seu pai.


A jovem virginal tenta enxergar algo sobre aquele rochedo solitário, então um Deus dos Ventos, Zéfiro, eleva Psique para um bosque verdejante! Ela aterrorizada, percebe um reino glorioso a sua frente, então ela vai entrando naquele castelo. Assustada, uma voz lhe diz 'minha senhora, não temas, pois tudo aqui lhe pertence! Descansa em seus aposentos'. Quando acorda, um magnífico jantar lhe aguarda, com musicas vindas de lugar nenhum. Ela volta para seus aposentos e durante o sono, ela sente uma presença que lhe envolve em carícias voluptuosas, tendo suas primeiras relações sexuais e o gozo.


Psique é cuidada na ausência do marido e durante a próxima noite, ela questiona o amante se ele seria um monstro. O misterioso sujeito lhe diz para que ela pode fazer qualquer coisa no reino, menos acender alguma luz que a faça ver o rosto dele.


As pessoas do reino que ela havia sido entregue, procuram respostas sobre o bem-estar da jovem, e Psique sente saudades de sua família. O sujeito misterioso diz para que se ela trazer a família, logo questionamentos serão feitos para revelar quem ele é e isso a fará o perder para sempre. Mas Psique envolve o sujeito em seu deleite e o faz mudar de ideia. A família então vai ao encontro da jovem e, diante tanta riqueza, questionam quem seria o marido dela. Psique dá joias e outros tesouros para as irmãs, para que elas vão embora em silêncio. Mas a inveja das suas irmãs já estava incendiando!


Psique se surpreende com a fala do amante, ao dizer-lhe que ela estava grávida, coisa que ela só havia percebido em seus sonhos. O sujeito avisa também que as irmãs dela estavam tramando armadilhas para revelar quem ele é e isso a faria perder seu amor. Psique diz que sua gestação precisa ser contada para a família e o sujeito cede novamente. As irmãs colocam a jovem em conflito, questionando sobre seu marido, daí tramam mais uma emboscada: elas entram em prantos de frente a Psique e diz que o marido dela é um monstro que irá devorar ela junto ao filho. Psique apavorada pergunta o que fazer, então elas de súbito dizem para ela esconder uma lamparina e uma faca afiada.


O sujeito dorme após ter-se com sua esposa e Psique pega a lamparina. Ela se dá conta que casou com um Deus belo que dorme serenamente. Ela fica perdidamente apaixonada pelo Deus, mas agora é tarde... Quando ela se inclina para o beijar, a lamparina verte óleo quente sobre Eros e este acorda furioso e tremendamente decepcionado. Ele vai embora enquanto Psique fica desesperada com a perda do seu amor...


Psique tenta se matar com a perda. Diante de um Rio (que também é um Deus Sábio), impede o suicídio dela. Psique passa a vagar até chegar na casa de uma das irmãs. Ela joga a ideia sobre Eros ter largado ela porque queria a irmã invejosa. Porém a irmã desprezada tenta se atirar pelo rochedo e é dilacerada! Eros já estava distante, no reino dos deuses.


Afrodite fica sabendo sobre o caso amoroso do filho através de um pássaro fofoqueiro. A Deusa não acredita que Eros estava amando a jovem que ela havia mandado amaldiçoar! Psique ainda está vagando, buscando pelo Eros perdido... Afrodite pede permissão para Zeus lhe emprestar Hermes, para que ele leve uma mensagem ao reino, solicitando que encontrem a jovem fugitiva e prometendo 7 beijos de mel para aquele que a encontrar. Quem não quer o beijo da Deusa da Beleza e do Amor?


Afrodite encontra a jovem diante seu templo, pois ela gostaria de encontrar com Eros e conversar com ele. A Deusa manda que suas servas a surrem, mesmo com a jovem estando grávida. Afrodite não aceita o herdeiro e a violência contra a jovem aumenta. Psique não se esmorece e então Afrodite diz: resolva estes trabalhos e poderei dar-lhe um momento com meu precioso filho. Então Afrodite empilha milhares de grãos de cevada e ordena para Psique os separar, grão por grão! A jovem já sem forças, prestes a desistir, percebe que as formigas que estavam ali a auxiliava na organização do labor. Afrodite ao retornar, não acredita que foi a jovem que havia feito aquele dispendioso trabalho. Joga um pão velho para a garota e diz que no outro dia terá outro trabalho.


Afrodite então aponta um campo do reino dos deuses, onde habitam ovelhas cujas lãs são de ouro. Ela ordena para Psique trazer-lhe um punhado de fios de ouro daquela lã. Psique ao ir rumo aquele rebanho, ouve o vento dizer-lhe através dos juncos que tais ovelhas são ensandecidas enquanto o Sol está clareando o dia. Ela é orientada para ir ao anoitecer, ficando atrás de uma árvore enquanto as ovelhas adormecem. Ao adormecerem, ele diz para ela ir nos arbustos por onde as ovelhas passam, que lá estarão fios que caem delas enquanto elas estão agitadas. Psique consegue os fios de ouro e Afrodite novamente sem acreditar, lança outro desafio para a garota...


A Deusa entrega um frasco para Psique e exige que ela traga água do Rio Styx. O Rio do Mundo dos Mortos fica numa "garganta" de rochas, protegido por dragões dos dois lados de sua entrada. Psique decide se matar diante tal empreendimento impossível... Então Zeus intervém na forma de uma águia e busca a água, avisando aos dragões que sua passagem se deve aos mandos da Deusa Afrodite. Ao chegar com a água, Afrodite se diz cansada e exige da jovem que vá até a Deusa Perséfone e lhe traga o elixir da juventude dela.


Psique ao entender que essa Deusa habita o mundo dos mortos, se entrega à morte do alto de uma torre. A torre lhe comunica que não é preciso de tal ato mortífero, mas que ela só precisa levar dois bolos de cevada com mel, colocar duas moedas na boca para fazer o trajeto e não parar para quaisquer coisas que ouvir e nem comer nada do Mundo dos Mortos. Então Psique chega ao barqueiro que guia ao Mundo dos Mortos, Caronte, que lhe retira uma das moedas de sua boca.


Psique depara com Cérbero do outro lado do Stynx, e da ao cão quimera um dos bolos preparados. Enfim ela se encontra coma Deusa Perséfone, que a recebe com requintes de uma dama educada e nobre. Perséfone ordena que ela entregue o elixir diretamente para a Afrodite. Ela entrega outro bolo ao cão, outra moeda ao barqueiro e enfim, antes de chegar a Afrodite, acreditando que havia terminado seus trabalhos e querendo estar plena para encontrar seu Deus amado; Psique abre o elixir para se rejuvenescer e o que sai daquela caixa era na verdade, o elixir do Sono da Morte!...



Enquanto esse tempo se passava, Eros já curado de sua ferida, atravessa uma janela de seus aposentos que o prendia, e vai em busca de Psique, por sentir a presença dela ali perto. Ao encontrar sua antiga amada desfalecida, Eros usa o poder de sua flecha e faz um ferimento no braço da jovem, recobrando sua vida imediatamente. Este seria o poder do Amor? Os dois juntos chegam ao Monte Olimpo, e questiona Zeus sobre as atitudes de Afrodite. Zeus convoca Hermes e solicita que ele envie a mensagem de convocação para um conselho, para saber como enfrentar tal dilema entre deuses e uma mortal.


Deusas e Deuses são reunidos e Zeus avisa para Afrodite que a mortal será uma imortal e assim, poderá casar de fato com um Deus. Afrodite não se opõe ao soberano do Olimpo e até dança na festa de consagração da mortal Psique, que agora recebe uma taça de ambrosia, o elixir da deificação. Zeus então profere as palavras de agora ela passará a ser eternamente ligada ao mundo dos deuses e formará um laço eterno com Eros. Alguns meses depois a filha de Eros e Psique nasce e recebe o nome de Volúpia, da união do Amor e da Alma!"


Um conto simbólico inesgotável de entendimento sobre as origens da vida psíquica, não é?


Conceituando


Psique pode ser traduzida como algo sem forma, como o sopro do vento que faz as borboletas voarem. A ira de alguma forma da Natureza é atraída para a humanidade "sem forma", talvez sendo a primeira cisão no entendimento humano/natureza. Tal desequilíbrio estabelece uma atitude, um movimento para lidar com o conflito instaurado pela "maldição divina". Eros tem o desejo pela tormenta, para vingar sua origem divina, e vai atormentar Psique. O desejo atrapalhado, passa a amar aquele ser "disforme".


As vozes no palácio de Eros vão formando o entendimento de Psique, dando sua forma através da voz "que sopra" suas vontades, seus medos, suas tristezas, suas alegrias... Os ventos sem forma então são definidos: Psique está "num dos palácios dos Deuses". E sempre que Psique entra em estado inconsciente (quando dorme), Eros vem para lhe visitar. O Desejo Amoroso só está na presença do ser mortal, quando essa não o pode ver!


Nunca olhe diretamente para a face de um Deus! Até que as intrigas humanas (as irmãs), começam a transgredir a vida inconsciente da Alma. Com um pequeno objeto de luz revelará a face divina, mas condenará a pobre alma humana também... Então começa a luta para reconquistar o prazer perdido, o acesso ao mundo inconsciente dotado de riquezas e amor sensual profundo e bem equilibrado. Uma alienação e retorno ao Si-mesmo.


O primeiro trabalho para a Alma (Psique) é a discriminação: saber separar os grãos: as escolhas! No segundo desafio é proposto algo que necessita de força e coragem, que é então transformado em estratégia e ação inteligente. No terceiro trabalho há um auxílio divino e no quarto trabalho, então, vem a captura de um fragmento divino, a tal fonte da juventude eterna. Mas ocorre a repetição trágica: a Alma decide abrir a caixa proibida para se aproximar novamente de algo além de sua compreensão...


Aqui observamos as pequenas ordens da Natureza auxiliando a Alma em pequenas atitudes, sejam das formigas, do junco, da águia e por fim, da Divindade Amorosa. E Zeus observando que Eros estava afoito e afim de pacificá-lo (pois até mesmo o grande deus temia o poder dessa expressão do Amor); Zeus deifica Psique para que esta possa estar eternamente equilibrando a luxúria "erótica".


Os mistérios da Natureza, da Alma, do Amor e do Desejo passam por esses percursos, feito uma jornada que nos leva ao mundo profundo e complexo do Inconsciente e as origens do "seu filho voluptuoso", a Consciência! A pesar de Freud tentar dizer que o inconsciente é somente pessoal, surgindo a partir da cisão traumática ocorrida na infância, levando um fenômeno psíquico que reprime e aprisiona elementos da consciência ao "esquecimento causador das doenças"; percebemos que a natureza da Psique é muito mais dinâmica e o "o mundo dos deuses" (o inconsciente) é anterior e posterior ao mundo mortal! Algo como a consciência passa a ser um fenômeno evolutivo posterior ao inconsciente e não este último um subproduto que toma ímpeto pelos instintos da natureza animal.


Espero que tenha gostado dessa breve jornada ao mundo das Almas humanas!



Texto por Michel L. C. Araújo, jan. 2026.


 
 
 

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